Revisão de Álgebra Linear (1) – Operações vetoriais de
, (sub)espaços vetoriais
Para podermos lidar com campos vetoriais, é necessário poder manipulá-los algebricamente. Para tal, precisamos coletar as ferramentas para essa finalidade, fornecidas pela Álgebra Linear.
Operações vetoriais de
, axiomas de espaço vetorial
Lembremos que
pode ser entendido como o conjunto das listas ordenadas de
números reais
:
![Rendered by QuickLaTeX.com \[\begin{split} \vx &=(x_1,\ldots,x_n) \\ \Then x_j &=j\text{\emph{-\'{e}sima componente de} }\vx\ ,\\ &\phantom{=}j=1,\ldots,n\ .\end{split}\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-67961b2107b59222d0e398ff1c52a084_l3.png)
Por “ordenadas” entende-se que trocando duas componentes de
de lugar muda a lista, a menos que tais componentes sejam iguais. Os elementos de
são denominados vetores em
ou vetores
-dimensionais.
é munido de duas operações vetoriais:
- A soma (vetorial) de dois vetores
,
, dada por ![Rendered by QuickLaTeX.com \[\begin{split}\vx+\vy &=(x_1+y_1,\ldots,x_n+y_n) \\ \Then x_j+y_j &=j\text{-\'{e}sima componente de }\vx+\vy\ ,\\ &\phantom{=}j=1,\ldots,n\ .\end{split}\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-ae7dfdcd0fca97d8968af7a3c3e3416c_l3.png)
- A multiplicação (pelo) escalar
do vetor
, dada por ![Rendered by QuickLaTeX.com \[\begin{split} \alpha\vx &=(\alpha x_1,\ldots,\alpha x_n) \\ \Then \alpha x_j &=j\text{-\'{e}sima componente de }\alpha\vx\ ,\\ &\phantom{=}j=1,\ldots,n\ . \end{split}\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-79453152422b2b9638faa80fc20386d0_l3.png)
As operações vetoriais de
satisfazem a seguinte lista de propriedades, chamadas axiomas de espaço vetorial real ou sobre
(em referência ao corpo de escalares
, que é o conjunto dos números pelos quais podemos multiplicar vetores, chamados escalares. Não consideraremos outros corpos de escalares além de
). No que se segue,
são vetores quaisquer e
são escalares quaisquer quando não especificados.
(comutatividade da soma);
(associatividade da soma);- Existe um vetor
em
tal que
para todo vetor
em
(existência de elemento neutro para a soma). A saber,
i.e. todas as componentes de![Rendered by QuickLaTeX.com \[\og=(0,\ldots,0)\ ,\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-d47e962b9d6a65caa90fce7cc7f7d3c4_l3.png)
são iguais a zero; - Dado um vetor
em
, existe um vetor
em
tal que
(existência de inverso para a soma). A saber,
i.e. a![Rendered by QuickLaTeX.com \[-\vx=(-x_1,\ldots,-x_n)\ ,\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-570b82f68627473d9869295eca2affd1_l3.png)
-ésima componente de
é igual a
para todo
;
(associatividade da multiplicação escalar);
(distributividade da multiplicação escalar com respeito à soma vetorial);
(distributividade da multiplicação escalar com respeito à soma escalar);
(elemento neutro para a multiplicação escalar).
Exercício 1. Verifique os axiomas (a)-(h) para as operações vetoriais de
.
Exercício 2. Verifique que
é o único elemento neutro para a soma vetorial de
e que, para todo vetor
,
é o único inverso de
para a soma vetorial de
.
Alternativamente, os Exercícios 1 e 2 serão resolvidos num contexto mais geral mais adiante.
(Sub)espaços vetoriais
Definição 1. Um conjunto
munido de operações vetoriais de soma (vetorial)
![]()
e multiplicação escalar
(
,
) satisfazendo os axiomas (a)–(h) enumerados acima é chamado de espaço vetorial (real ou sobre (o corpo de escalares)
). Neste caso, os elementos de
são chamados de vetores em
.
Propriedades das operações vetoriais que dependem apenas dos axiomas de espaço vetorial (identidades que seguem de um axioma específico dentre os axiomas (a)-(h) terão o axioma usado indicado sobre o sinal de igualdade quando necessário) valem para todos os espaços vetoriais, não apenas
! Em particular, tais propriedades não dependem das características específicas de
e sua operações vetoriais. Por exemplo:
- Só existe um elemento neutro – portanto, justificadamente denotado por
– para a soma vetorial de
. (de fato, dados vetores
tais que
para todo vetor![Rendered by QuickLaTeX.com \[\vx+\vo_1=\vx+\vo_2=\vx\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-a1cf4d7e0dac1f962db6cb87e4e5aa55_l3.png)
, tomando
obtemos
e tomando![Rendered by QuickLaTeX.com \[\vo_1+\vo_2=\vo_1\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-6615eaf7ae63a10b199b7555d967caa6_l3.png)
obtemos
Concluímos daí e do axioma (a) que![Rendered by QuickLaTeX.com \[\vo_2+\vo_1=\vo_2\ .\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-f89d0a5fabf938ca2b1471c6e5f2ae9d_l3.png)
) - Dado
, só existe um inverso de
para a soma vetorial de
– portanto, justificadamente denotado por
(notação:
). Em particular,
. (de fato, dado
sejam vetores
tais que
. Somando-se
à primeira e última fórmulas, segue que
e![Rendered by QuickLaTeX.com \[\vz+(\vx+\vy)=\vz+\og\stackrel{(c)}{=}\vz\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-aa4aef389a2f9cd039bc63209fab0e62_l3.png)
de onde concluímos que![Rendered by QuickLaTeX.com \[\vz+(\vx+\vy)\stackrel{(b)}{=}(\vz+\vx)+\vy\stackrel{(a)}{=}(\vx+\vz)+\vy=\og+\vy\stackrel{(c)}{=}\vy\ ,\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-69a5f1dc595bc1590ac5bf99102a9653_l3.png)
. A última identidade segue disso e de (a))
. (de fato,
Somando![Rendered by QuickLaTeX.com \[0\vx+0\vx\stackrel{(g)}{=}(0+0)\vx=0\vx\ .\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-e40a68aa629963c36c9a0fa91fbb50b9_l3.png)
à primeira e última fórmulas, concluímos que
e![Rendered by QuickLaTeX.com \[(0\vx+0\vx)-0\vx\stackrel{(b)}{=}0\vx+(0\vx-0\vx)\stackrel{(d)}{=}0\vx+\og\stackrel{(c)}{=}0\vx\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-3d3e43318fb433d0bd033f4d7c6aaade_l3.png)
, logo
)
. (de fato,
De maneira análoga à prova da propriedade anterior, somando-se![Rendered by QuickLaTeX.com \[\alpha\og+\alpha\og\stackrel{(f)}{=}\alpha(\og+\og)\stackrel{(c)}{=}\alpha\og\ .\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-bddfdefbb1f8146150142c3d4e8ef243_l3.png)
à primeira e última fórmulas, concluímos que
e![Rendered by QuickLaTeX.com \[(\alpha\og+\alpha\og)-\alpha\og\stackrel{(b)}{=}\alpha\og+(\alpha\og-\alpha\og)\stackrel{(d)}{=}\alpha\og+\og\stackrel{(c)}{=}\alpha\og\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-ad3e8f28a3b470b4898f6b540bfe9f78_l3.png)
, logo
)
. Em particular,
. (de fato,
e![Rendered by QuickLaTeX.com \[(-\alpha)\vx+\alpha\vx\stackrel{(g)}{=}(-\alpha+\alpha)\vx=0\vx=\og\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-234b346058e0953575ab24f11f7b0629_l3.png)
O resultado desejado segue da unicidade do inverso para a soma vetorial de![Rendered by QuickLaTeX.com \[\alpha(-\vx)+\alpha\vx\stackrel{(f)}{=}\alpha(\vx-\vx)=\alpha\og=\og\ .\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-35466d599a05a2b1b8780047d5d1b44e_l3.png)
provada acima)- Se
, então
ou
. Em particular, se
,
é o único escalar que satisfaz o axioma (h). (de fato, vimos acima que
. Se, por outro lado,
, temos que
logo![Rendered by QuickLaTeX.com \[\frac{1}{\alpha}(\alpha\vx)\stackrel{(e)}{=}\left(\frac{\alpha}{\alpha}\right)\vx=1\vx\stackrel{(h)}{=}\vx=\frac{1}{\alpha}\og=\og\ ,\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-ee1494c29835bcf36ee16317a232ab23_l3.png)
. Para a última afirmação, notar que se
para todo
, então
Tomando![Rendered by QuickLaTeX.com \[\alpha\vx-\vx=\alpha\vx+(-1)\vx\stackrel{(g)}{=}(\alpha-1)\vx=\vx-\vx\stackrel{(d)}{=}\og\ .\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-ded3f2aaa39779c5f49cdaf25a2accb7_l3.png)
qualquer resulta em
).
Exercício 3. Prove a partir dos axiomas (a)-(h) e/ou de suas consequências provadas acima as seguintes propriedades, válidas para quaisquer vetores
e quaisquer escalares
- Se
e
, então
;
- Se
e
, então
;
;
. Mais em geral,
. (para a definição do símbolo de somatória num espaço vetorial, ver o início da aula 3)
Dentre os exemplos de espaços vetoriais, podemos citar:
- Obviamente,
. Em particular,
é espaço vetorial sobre si mesmo. - Dado
, seja
o espaço das funções de
em
:
Definimos em tal![Rendered by QuickLaTeX.com \[ V=F(A,\RR)=\{f:A\To\RR\}\ .\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-edf31d88c261508db4af6904493ff57b_l3.png)
as operações vetoriais pontuais (a seguir,
,
,
são quaisquer)
- Soma (vetorial):
![Rendered by QuickLaTeX.com \[(f+g)(p)=f(p)+g(p)\ ;\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-d8ad4a62870c22419b890d77983605d8_l3.png)
- Multiplicação escalar:
![Rendered by QuickLaTeX.com \[(\alpha f)(p)=\alpha f(p)\ .\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-03fd06c66039cce6202631d0029ca502_l3.png)
). De fato, se
,
e
são quaisquer, então:
;
;
(i.e.
para todo
) satisfaz
para todo
;- Dado
,
satisfaz
para todo
;
;
;
;
.
,
então
e as operações vetoriais pontuais de
coincidem com as operações vetoriais usuais de
, logo as últimas satisfazem os axiomas (a)-(h), como apontado acima. - Soma (vetorial):
- Mais em geral, se
e
é um espaço vetorial (real), seja
o espaço das funções em
a valores em
:
![Rendered by QuickLaTeX.com \[ V=F(A,W)=\{\vf:A\To W\}\ .\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-55a93db014c6d10348ef201b3af4c674_l3.png)
Definimos em tal
as operações vetoriais pontuais (a seguir,
,
,
são quaisquer)- Soma (vetorial):
![Rendered by QuickLaTeX.com \[(\vf+\vg)(p)=\vf(p)+\vg(p)\ ;\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-f41aaa8756c164612ea7643c5ab8ba7e_l3.png)
- Multiplicação escalar:
![Rendered by QuickLaTeX.com \[(\alpha \vf)(p)=\alpha \vf(p)\ .\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-fe28bebde80c27491a45c25ead6fe3dc_l3.png)
. Os cálculos são exatamente os mesmos. - Soma (vetorial):
Mais exemplos podem ser obtidos a partir dos dados acima a partir da seguinte
Definição 2. Seja
um espaço vetorial, e
não-vazio. Dizemos que
é subespaço vetorial de
se, dados
e
quaisquer, então
;
.
Se
, dizemos que
é subespaço vetorial próprio de
.
Mostraremos que todo subespaço vetorial
é um espaço vetorial se munido das operações vetoriais herdadas de
(o que sempre assumiremos ser o caso). De fato, os axiomas (a), (b) e (e)-(h) são claramente satisfeitos em
. O que nos resta fazer para obter a validade dos axiomas (c) e (d) em
é provar, respectivamente, que:
. (se
, segue de (ii) que
)- Se
, então
. (se
, segue de (ii) que
)
A vantagem de lidar com subespaços vetoriais é que verificar se
é subespaço vetorial de
é bem mais simples do que verificar os axiomas (a)-(h) em
. Em particular, ao verificarmos se
, é conveniente verificar se
. Se não for o caso, sabemos com certeza que
não é subespaço vetorial, mesmo se
não for vazio.
(Contra)exemplos de subespaços vetoriais:
qualquer,
: claramente
e vimos que
para todo
, logo
é subespaço vetorial de (V) – o chamado subespaço vetorial trivial de
.
,
: claramente
. Além disso, temos que se
e
então
e![Rendered by QuickLaTeX.com \[(x,y,0)+(x',y',0)=(x+x',y+y',0)\in W\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-c72cd62032e97331f069696e4e240783_l3.png)
![Rendered by QuickLaTeX.com \[ \alpha(x,y,0)=(\alpha x,\alpha y,0)\in W\ .\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-36d0e35a47ced5561eb01c49d76c6695_l3.png)
,
, onde \eqref{ch1e2} é o sistema linear homogêneo (1)
Claramente
. Além disso, se
pertencem a
e
, então
e![Rendered by QuickLaTeX.com \[ \left{\begin{array}{cccccr} A^1_1(x_1+y_1) & + & \cdots & + & A^1_n(x_n+y_n) & =0 \\ \vdots & \vdots & \vdots & \vdots & \vdots & \vdots \\ A^m_1(x_1+y_1) & + & \cdots & + & A^m_n(x_n+y_n) & =0 \end{array}\right.\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-49b35920836c9e25fcd32e3b2ffa0313_l3.png)
logo![Rendered by QuickLaTeX.com \[ \left{\begin{array}{cccccr} A^1_1(\alpha x_1) & + & \cdots & + & A^1_n(\alpha x_n) & =0 \\ \vdots & \vdots & \vdots & \vdots & \vdots & \vdots \\ A^m_1(\alpha x_1) & + & \cdots & + & A^m_n(\alpha x_n) & =0 \end{array}\right.\ ,\]](https://pedroribeiro.prof.ufabc.edu.br/wp-content/ql-cache/quicklatex.com-d5116a51cd735cc32d8dddf12143154c_l3.png)
e
também pertencem a
. Veremos mais adiante que esse é um exemplo genérico: todo subespaço vetorial de
é o espaço de soluções de algum sistema linear homogêneo. Por outro lado, se o lado direito de alguma das equações de (1) não fosse zero (i.e. o sistema passasse a ser não-homogêneo), então
não pertenceria a
pois nesse caso tal equação obviamente não pode ser satisfeita. Logo, nesse caso
não pode ser subespaço vetorial de
.


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